Marllus
Marllus Cientista da computação, mestre em políticas públicas, professor, poeta, escritor, artista digital e aspirante a tudo que lhe der na telha.

As panelas

As panelas
Photo by Annie Spratt

Quem vos fala sabe e lembra, como se fosse hoje, a tentação q foi aquele dia. A pela enrijece só de imaginar a dita cena, passada na dita data…

Estávamos nós, eu, João, Dedé, Fernanda, Sara e mais outros três que há de me faltar o nome nesse momento, sentados todos na varanda da casa da vovó, no sertão de dentro do Piauí. O relógio batia 23h, que era praticamente madrugada para os habitantes da região.

João fala, ansioso: – ei, deixa eu contar uma história que aconteceu lá em casa???

Subitamente, disseram: – NÃO!! Nada de histórias da capital. São muito clichês.

João esmureceu, triste.

Foi aí que Dico, o vaqueiro, puxou a prosa, ao dizer: eu sei de uma, mas não é nem história inventada não, é história que vi, com esses zói aberto.

Nem precisa dizer que ele seria o próximo da vez, pois os olhares imploravam pra ele continuar. Na hora, percebeu e não deixou-se hesitar.

– Eu tava como se fosse hoje naquele colégio bem ali, que vocês tão vendo. Teve um dia que fiquei lá até mais tarde mas só não fiquei pra banhar porque não deu tempo.

O Dico era o vaqueiro da fazenda, e uns 100 metros da casa grande tinha uma escola do município, que meu avô havia cedido para prefeitura construir.

– Eu tava lá, fui cedo fazer um serviço que o patrão me pediu. Tava cortando uns capim pra levar pro chiqueiro que tinha umas cabra que não queriam comer, e quebrar uns milho pra da de cumê pra uns leitão que ia sangrar no final de semana. Lá no colégio é grande e o mato tava por cima, junto com umas saca de milho que a gente deixava lá pra secar.

– Vocês sabem que no colégio não tem luz, só de motor, né? – perguntou pra todos nós.

A fazenda não tinha energia elétrica padrão da rede municipal (ainda não havia chegado o ‘luz para todos’), mas um motor à diesel, que ficava no dito colégio, que era ligado diariamente para funcionar lâmpadas e TV, tanto de lá quanto da própria casa grande. A geladeira era à gás. E funcionava. O motor era ligado diariamente por volta de 18h e desligado às 20:30h, quando todos iam dormir.

– Eu perdi o tempo e o céu encarnou. Meu amigo, era escuridão doida. Não tinha nem lua nova. Quando me dei conta no tempo, acho que já batia umas 19:30h e não sei como ninguém tinha me gritado da casa.

– Eu de pronto fui lá, cortar esse tempo perdido e girar na manivela aquele marrento Yamaha. Vocês sabem que esse motor falta quebrar o braço da gente, né? - Falou, com um sorriso cansado.

– Mas no colégio tem a cozinha, e ninguém estava mais na escola. Eu sei que não tinha ninguém naquele canto, mas vi que uma janela de lá tava aberta. Será que esqueceram?

– Eu ate pensei em entrar, mas deixei pra lá no início. Fui no motor e girei a manivela. No ato, comecei a ouvir uns piado e logo me perguntei se o bicho tava com problema. Parei e fiquei ouvindo. Mas nada. Rodei de novo, e nada, nem de parar de piar nem do motor ligar. Então, parei e esperei pra vê se algo acontecia e de onde eu escutava o som que assubiava no ouvido.

– Foi aí que percebi que o piado não era do motor, definitivamente. Era de longe. Longe o suficiente para não estar na minha frente e perto o bastante para ter certeza que era dentro do colégio. Mas que diabo era isso?

– Então eu fui ver por dentro do colégio se tinha entrado um animal, e saber se não era frescura dele, mexendo em alguma coisa. Podia ser um bode, um cachorro ou bicho mais arisco, feito cutia, raposa ou veado, quem sabe…

– Foi então que passei pela cozinha, que ficava na parte central da escola, e vi a janela fechada. A mesma janela que minutos atrás eu vi aberta, sem saber o motivo.

– Será se tem alguém aí, eu me perguntei.

– Então, levemente empurrei a janela da cozinha, e fazendo aquela zuada de porta velha se abrindo, senti um puxão, como se alguém tivesse me ajudando a abrir, pelo lado de dentro.

A cozinha era tipo aquelas industriais, mas pequena em extensão. As panelas ficavam penduradas pelo cabo por uma armação de ferro fixada no teto.

– Sem mentira nenhuma, nessa hora eu ouvi um som doido de panelas sendo batidas, como se alguém tivesse uma colher de pau batendo nelas. Bem ali na minha frente. O medo subiu na espinha.

– Nessa hora percebi que não era bode nem veado, era alguém, na escuridão fazendo alguma coisa que não sabia o que era.

– Não sei se vocês lembram, - falou pra gente, - que teve naquele época uns doido da cabeça que se achegaram por aqui sem saber pra onde ir. Eram desses caminhantes da estrada e paravam por aqui pra dormir ou fazer baderna no meio da noite. Pois é, eu imaginei que fosse mais um.

– Mas aí resolvi abrir a porta, só que estava trancada. Então pensei: rapaz, tenho que entrar dentro desse negócio pra tirar a prova dos nove. Ou vou ficar por aqui sendo besta? Não.

– Foi aí que subi na janela e entrei por cima. Tirei meu facão da cintura e deixei no balcão, pra facilitar a subida pro peituri e fui só na coragem.

– Era um misto de escuridão, com brilhos das panelas areadas, parecia um céu. Tava difícil de ver, mas no olhar geral não deu pra perceber nada lá dentro. Estava vazio. Sem bicho. Olhei mais fixamente pra os cantos da cozinha e nada também.

– Até que, olha meu braço, – mostrou pra todos, – me dá até um calafrio lembrar. Eu senti no ato um suspiro no pé do meu ombro. Não era vento nem nada, pois tava calor e naquela época era outubro. Era um suspiro mesmo, de gente!

– Rapaz, nesse hora deu até um branco de olhar pra trás. Finado Antônio Gameleiro me dizia muito: não olhe pra marmota de noite, siga seu caminho que o medo é menor.

– Dito e feito! – falou ele.

– Na mesma hora subi no peituri da janela e pulei pra voltar, então foi aí que gelei. O diabo das panelas começaram a bater feito loucas novamente. Algumas caíram no chão e outras dava pra jurar que tinha alguém batendo com um pedaço de pau.

– Eu tava branco, azul, verde e amarelo, parecendo um papagai. Mas nada de olhar pra trás, praquele breu de escuridão.

– Quando saí da cozinha não sabia o que fazer. Nem lembrava mais dos afazeres, diante dessa marmota que acabou de acontecer.

– Mas aí veio um impulso, daqueles fortes. Comecei a correr. Correr até a porta pra falar pro povo o que tinha visto. E no meio do caminho eu invento de olhar pra trás. Até hoje me pergunto o porquê.

– Só vi o olho branco e o formato da cabeça no pé da janela, me encarando feito onça dentro do mato. Eita ôi do cão!

– Mas daí cheguei até o portão, que tava trancado. Assustei. Quem diabo trancou isso? Pulei feito bode correndo de cachorro. Como era cerca de arame, foi só um pulo. Ainda bem q não me rasguei. Sinal que quem pulou foi mais o medo do que eu mesmo.

Então, é no ato da sua fala que, pasmem, a gente escuta zuada de panela batendo no dito colégio, que só dava pra ver o clarão da sua parede branca de onde estávamos.

Em supetão, não sobrou um cristão de Deus pra olhar pra ninguém. Só lembro de sair correndo sala e quarto a dentro e ir pro fundo da minha rede e me enrolar feito múmia, tremendo. Tudo estava impressionantemente escuro e me assustei ainda mais. Lembrei da história do Gameleiro, que o Dico comentou. Mas aí que percebi uma claridade debaixo da rede.

Mesmo com medo, me virei pra olhar. Foi quando vi uma panela do lado de um facão grande, escrito nele:

"Entregue pro Dico. Ele esqueceu na cozinha."