Marllus
Marllus Analista de TI, mestre em políticas públicas, professor, artista digital e aspirante a tudo que lhe der na telha.

O sujeito criativo

O sujeito criativo
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Fernando Lefevre e Ana Maria Lefevre propuseram, em 2003, uma metodologia qualiquantitativa de representação social chamada Discurso do Sujeito Coletivo (DSC). O objetivo era, literalmente, e tendo como base a teoria das representações sociais, de Jodelet, expressar a opinião de um grupo, sobre determinado assunto.

Vários estudos indicam uma eficácia empírica, no potencial de representatividade de grupos sociais, a partir de sua utilização em diversas áreas de investigação científica.

Em resumo:

Passo a passo do DSC
Passo a passo do DSC


Com base nesse conceito, apresento uma breve proposta de um dos meus processos de trabalho em produção artística, que diz respeito, especificamente, ao processo criativo.

Em algumas ocasiões - e aqui não arrisco tocar na questão relacionada aos diversos insights obtidos na pré materialização das ideias - eu procuro obter a opinião estética dos sujeitos, enquanto grupo, a respeito de uma obra determinada e posta diante de deles. Aqui, e tomando como base o DSC, explicito as etapas determinantes:

  • Busco reflexões estéticas a cerca de um objeto (inclusive as minhas);
  • Tomo as ideias centrais das reflexões;
  • Sintetizo frases chave junto com um texto geral, unindo as ideias centrais;
  • Gero reflexões por agentes artificiais a partir do texto gerado no passo anterior;
  • Uno os textos e fiço ligações morfossemânticas;
  • Gero o texto final;

Todo esse processo inventivo - e também generativo - faz parte do que eu chamo de adaptação do Discurso do Sujeito Coletivo, original dos Lefreve, com uso de Inteligência Artificial - IA, para geração de poesia/prosa experimental. A ideia geral é tentar capturar uma reflexão estética coletiva - humano/máquina - de um objeto posto, gerando uma opinião - em primeira pessoa - de um certo assunto (aqui, uma arte fotográfica). A ideia da primeira pessoa remete ao conceito teórico bourdieuano, que a define como um regime natural de funcionamento das opiniões ou representações sociais, enquanto estrutura estruturante/estruturada nos indivíduos. A melhor opinião, nesse sentido, tem que ser a do sujeito coletivo, no próprio ato de se reconhecer.

Deixo aqui um exemplo prático, partindo da imagem do início desse artigo (com base em sujeitos reais):

Ideias centrais:

  • Subestimação da sabedoria animalesca
  • Encontro do conforto no corpo
  • Lembrança do ratos de Dostoiévski
  • Divinização do rato, enquanto ser iluminado
  • Desconforto do cão antes do ponto atual
  • Sentimento de isolamento e prisão arquitetônica

Reflexão final gerada:

A subestimação da sabedoria animalesca, bem como as relações de conforto com o próprio corpo, não parecem imanar nada vulgar - mesmo presente uma certa analogia aos ratos de Dostoiévski, em sua máxima divinização, enquanto figura iluminada –, mas resumem-se, em formas gerais, ao próprio desconforto do cão antes de chegar a esta posição. A arquitetura fechada parece remeter à ideia do isolamento, e a expressão corporal melhor define a ação do ser de impor sua própria atitude, de capturar a única fresta de raios solares que no recinto se adentra. O enclausuramento lhe leva a transformar o próprio corpo, subjugado pelo próprio tempo. É digna a necessidade da transformação do ser animal em ser humano e do ser humano em animal. Por isso podemos dizer que os problemas mais importantes e fundamentais na compreensão do nosso próprio ser são as questões sobre a existência do sujeito e o problema da relação deste sujeito com o mundo.