Marllus
Marllus Analista de TI, mestre em políticas públicas, professor, artista digital e aspirante a tudo que lhe der na telha.

Cachos monocromáticos

Cachos monocromáticos
Photo by Anthony Tran

Era inverno no nordeste e, como sabem, é uma das etapas inconsistentes que acompanham o nome, já que os conceitos sobre o clima são diretamente ligados à geografia norte-sul do país. Se bem que chovia, mas não chegava a tanto.

Os sons lacrimais me lembravam o dia a dia do cair das chuvas, escassas e espaças. Quanto mais tudo se passava, mais me fazia lembrar dela. A dita cuja que, no ápice das minhas três décadas, resolveu entrar e eu tratei de esquecer de deixar um bilhete de saída. Oh, que saída.

Ainda me lembro daquele carnaval, onde quase consegui perdê-la de vista no meio de tantas cores, aqueles cachos monocromáticos quase passaram desapercebidos, longe de mim. Me pergunto o porquê, o objetivo, ou um sinal que pode vir a ajudar, para eu tentar entender o que foi aquilo.

Eu quase hesitei, tentando disfarçar meu olhar, mas fui lá, um pouco cambaleando, tentando manter o olhar para não parecer tão ‘pra frente’. O sorriso veio quase na hora de ela falar que já ia embora. Como pode, já? No outro dia percebi que estar de noite não quer dizer que não seja tarde, em épocas de bloquinhos de rua.

Acordei com um sms, olha só. Será que algum amigo me diria quais as merdas fiz ontem? Ou será operadora com novas promoções? O número tinha ddd e tudo, mas nada de nome.

Meus olhos, ainda meio enebriantes da noitada de sono, tentavam me convencer a voltar pro cochilo, mas a minha vontade levemente foi ficando acelerada, na medida em que o senso ia recuperando, ao ler a primeira frase: “oi, nos conhecemos..”.

Eu achava que tinha acordado, e em meio a quase revoltas sobre alguma coisa do café da manhã, consegui ficar sentado na rede e comecei a pensar. Alguns registros de sonho me vieram, algumas risadas dos dias anteriores. Mas algo se perdia no emaranhado. Eu sei lá quem tava falando!

Mas aí descobri que faltavam alguns pulsos elétricos, ao sentar em uma mesa cheia de gente, 50 segundos depois de carregar uma caneca de café sem açúcar e tomar aquele golpe, daqueles que marcam a língua, pela falta de concepção da medida, tempo e da temperatura daquilo.

Repensei e, como mágica, consegui me lembrar. A primeira imagem foram os cabelos monocromáticos. Aquele preto escuro que ‘dói até os dentes’ e aquele sorriso. Então, percebi que passei um lapso temporal feito zumbi, achando que estava acordado e que, mesmo depois de um banho, ainda me faltava firmeza emocional.

A mensagem dizia assim: ‘oi, nos conhecemos ontem. Estarei naquele local às 16h. Sou pontual, viu :*’. Depois de ler isso eu quase me deparo com outra mensagem de continuação, mas, infelizmente, ficou só no quase. O coração começou a bater de uma forma estranha, ao mesmo tempo de uma elevada agonia, como a de um bode, quando está no meio da mata branca, longe de casa e se depara com aquele céu cinza, em plena duas da tarde.

Como eu poderia lembrar disso? Meus pensamentos estavam enevoados, como a chuva que caía feito vento naquele sol raiante. E agora? Pensava, pensava, pensava e nada. Eu só me lembrava de um terrível encantamento no dia anterior. Fiquei até intrigado sobre o motivo de ter previamente esquecido, mesmo diante de um olhar matinal ébrio.

Eu estava pensando e nunca saberia dizer o que me ocorreu naquela noite, se nos beijamos, abraçamos, o que tanto conversamos, se tinha filhos, irmãos, onde morava e a grande questão: ‘que lugar era esse?’.

As histórias sobre amores perdidos geralmente se passam através de um eu lírico que alardeia cenas marcantes e tenras aventuras, mas não queira saber o quanto de você consegue desmoronar por um motivo que remete a um curioso caso de esquecimento. A dor de imaginar como seria esse relacionamento talvez tenha me causado mais estranheza do que o ter vivido, ficado com suas abcessas lembranças, por mais dolorosas que tivessem sido. Pelo menos, ele teria tido um início razoável, certamente, mais do que minha atual velhice.